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Cineclube Maria Sena

Carlos Gomes


"Nós, Cineclubes, vamos seguindo é pela força existencial mesmo, para existir como gente que é “agente”, não passivo e reclamador. E cada um de nós, grupos espalhados pelo Brasil, vamos nos enxergando e nos apoiando. Porque nós sabemos de valores que o restante da sociedade precisa ser alertado. Não temos a luz que fulge resplandecente como neón comercial, que chama a atenção das pessoas e as atrai, mas temos a luz que brilha nas paredes. E esta tem uma mensagem que não é para vender ou comprar. É para ser, existir e principalmente compreender."

(Cineclube Maria Sena, Abril de 2013)

Nossa experiência cineclubista, que se iniciou no ano de 2008, é de certa forma atípica, pois uma das características mais marcantes do cineclubismo são as sessões em sua sede ou sala de exibição alugada, com períodos regulares, frequência de um grupo pequeno ou médio, que ao final das sessões de filmes cujas propostas “não são estritamente divertir”, se dedicam a debater, analisar e ouvir as opiniões a respeito do que foi exibido. Mas “ainda que divirtam”, a primeira proposta de tais filmes é apontar modos de ver a vida; interpretar a existência humana conforme a visão do diretor, quando chamamos a obra de filme de diretor; ainda que se trate de uma comédia, não se propõe apenas entreter. Não pode facilmente ser classificada como o que acertadamente se denomina “indústria do cinema”, com todas as peculiaridades que algo “industrial” carrega, como atingir consumidores cada vez em maior quantidade. Para isto, filmes do cinema industrial abrem mão de nuances mais minuciosas, psicológicas, filosóficas, artesanais. Então, note-se que há uma bem estabelecida distinção entre o cinema industrial, amparado por muita grana e publicidade, e o cinema de autor, artesanal, que ainda que divirta o público, se propõe a mais que isto: descortinar um modo a mais de enxergar a vida, de filosofar (ainda que você não concorde com o que se lhe descortinou, viu um diferente modo de pensar a vida. Você se ampliou). Mas dizíamos que nosso Cineclube Maria Sena, aqui do interior das Minas Gerais, tem uma experiência diferente dos demais cineclubes quanto a suas sessões. Nossas sessões quinzenais são pouquíssimas frequentadas. A bem da verdade, o que chamamos sede é um cômodo da casa de um dos membros, onde guardamos nosso material. E duas coisas nos fazem há anos não fazermos campanhas para que as pessoas se esforcem vir nas sessões da sede: primeiro, que desde que fazíamos “vaquinha” para alugarmos uma sala de exibição local, fomos notando a diminuição dos que partilhavam o aluguel, e foi se tornando sacrificial para os poucos que depois de 1 ano ainda colaboravam. E acabamos há anos nos apertando na casa do companheiro, que é apertada. Segundo (e este é o real assunto nosso aqui…), que a aquisição de equipamento por edital que nos possibilitou podermos sair da sala de exibição com sua infraestrutura, abriu condições para exercermos (com sacrifício, dores, mas realização e satisfação) a verdadeira e grande vocação de nosso cineclube: levarmos o cinema até ao povo em diversos locais e municípios, ao invés de apenas esperarmos que venham a nós (e muitos não viriam jamais).

…E com dois anos de existência, já conseguimos implantar nosso mais valioso projeto: “Cineclubismo e Educação”, com o qual já realizamos quase trezentas sessões em escolas de municípios de nossa microrregião e próximos dela. Levando além de longa-metragens, inúmeros curta-metragens, na imensa maioria brasileiros, grande quantidade sulamericanos. Mas também diversos filmes de outros países. Muitas mostras realizamos em faculdades. Mais ainda no ensino médio e fundamental. Mas nos orgulha por vezes com lágrimas as centenas de sessões para creches e classes de alfabetização e principalmente… principalmente!, nossa “opção pelos distritos longe dos centro, ‘as roças’, tão mais afastadas das ações de cultura do que as cidades do interior”. Desde nossa primeira tentativa de edital, fizemos questão de afirmarmos que exigíamos um maior porcentual das sessões no interior dos municípios. E honramos isto. Além de sessões para portadores de necessidades especiais. Chegou-se num ponto em que estava patente que uma função cultural e educacional de estado, de governo local, estava sendo preenchida por ações nossas. Claro que sem o poder de alcance que um governo local teria, se o fizesse. Uma das gestões tentou nos cooptar, uma “terceirização” camuflada. Recusamos. Notavelmente, a imprensa local hoje não tem facilidades de publicar matérias sobre nosso cineclube…

Conselhos a todos os cineclubes: façam parcerias! Com outros cineclubes já estruturados; com fundações; com escolas; com associações diversas. Não se resumam a ser um clube de cinema, isolado. Usem o cinema para fazer diferença nesta sociedade brasileira tão carente de cultura. Pesquisem possibilidades. Lembramos que éramos mais “esperança de ser” ainda, quando conseguimos um convênio com a Embaixada da França e sua cinemateca, para sessão de filmes. Pouco depois, o Festival Latinoamericano de lá Classe Obrera; Coletivo de Vídeo Popular; Centro Cultural Banco do Nordeste; Ibram e sua Primavera de Museus. Depois, Secretaria de Cultura de Minas Gerais, Dia Internacional de Animação, Festival Filme Livre, Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, Festival do Minuto e finalmente Oficina de Idéias e Cineclube Sabotage (com quem realizamos em 2014 uma Oficina de Vídeo). E encaixamos todas as mostras nas parcerias com escolas e entidades, convergindo com nossa proposta de lutarmos para que os estudantes melhorem seu acesso à cultura e conhecimento através do cinema. Queremos então, aconselhar algo essencial para que como nós, todos os cineclubes consigam abrir estas portas e mantê-las: cuidem bem de seus acertos com as parcerias. Sejam preciosos com as prestações de contas dos editais que participarem. Sofram por isto, porque serão recompensados. Hoje, devido à troca de informações entre os diversos eventos nacionais e internacionais de mostras de cinema, nós aqui conseguimos um bom nome, de responsáveis. Já fomos procurados por entidades para parcerias, antes de tentarmos contato.

Queremos isto para todos vocês, companheiros cineclubistas. Cinema para todos!